ZMR VS. TMM

THIAGO MARTINS DE MELO, ZIMAR

CURADORIA: GERMANO DUSHÁ


A chama do caos lambe todos os cantos: correm os bichos e as gentes, flamejam os apetites da carne, os membros se tornam rígidos, as orelhas ficam em pé, ouvem-se rodopios e urros, enlaces e consumações. Um estrondo se faz forte, como um colosso, e logo assobiam as flechas, reluzem as lâminas, estouram as guerras, surgem as caravelas nas baías e os tratores nas selvas, monotemática aniquilação. Por convergência ou distinção, por paixão e procriação ou pela brutalizante destruição, afloram composições e contrastes, o temor do abismo e a abundância da natureza. Brilham as luzes dos astros nas águas que banham os solos, que escondem os fósseis, outrora arcadas dentárias cheias de línguas. Encantados e cantorias, tiros e tambores, monstros e marés maranhenses. Mil gritos, rugidos ou bramidos, disparam fazendo frente ao assombro da própria existência. Perpassam as caixas torácicas, sobem pelas gargantas, ganham momentum e, num impulso fatal, fazem tremer os ossos das bocas, ganhando vazão no mundo. A subida que desponta fatalmente alcança o céu. Ato final: as vozes transmutam-se, da matéria à poeira cósmica, diluindo na energia criadora que movimenta a engrenagem do todo, ecoando na imensidão do infinito.

O projeto da Lima Galeria para a SP-Arte Rotas Brasileiras 2023 propõe um entrelaçamento entre a obra de dois artistas maranhenses com formações e práticas distintas, mas que compartilham o mesmo vigor inventivo: Zimar e Thiago Martins de Melo. Intitulado Mil cabeças sob a apoteose do último céu, o projeto reúne diferentes trabalhos recentes de cada um dos artistas numa composição harmônica, ensejando uma situação apoteótica.

A produção de Zimar, cuja grandeza lhe conferiu reconhecimento como mestre, é pautada em sua vivência como brincante de Cazumba do Bumba meu boi — a maior manifestação cultural do Maranhão. O Cazumba tem papel importante dentro da estrutura narrativa do Boi. Não tem gênero definido e tampouco pertence a uma espécie biológica. Não é gente nem bicho: é um ser mágico. No folclore, tem como função abrir a roda e instaurar a brincadeira, interagindo diretamente com o público e os demais personagens. Sua figura — metade homem, metade fera — traz sempre uma feição marcante, causando a um só tempo espanto e encanto, susto e divertimento. O Cazumba é notório pelas "caretas" — máscaras complexas e incrementadas — e pelas "fardas" — batas ornamentadas sempre vistosas e coloridas —, e não raro traz nas mãos um "badalo" (pequeno sino de chamar boi), que é tocado de modo ritmado e incessante.

Como participante dos Bois-bumbás de sua cidade, principalmente o Boi Flor de Matinha, Zimar confecciona as caretas — ou queixos, como também são chamadas essas máscaras — como peças capazes de ativar outras existências possíveis. A vitalidade de sua força criativa dá vazão a acoplamentos e hibridismos inauditos. Formula, assim, cabeças para quem encarna a própria transmutação, convertendo os brincantes em seres mágicos de natureza inexprimível. Por meio do manejo de diversos materiais numa prática tão virtuosa quanto antidisciplinar, o artista concebe uma forma para as imagens que aparecem em visões oníricas ou observações do mundo, encarnando suas figuras monstruosas na matéria. Cada careta traz em si características muito peculiares, afirmando uma subjetividade própria. No conjunto, são inúmeras personalidades distintas, partes autônomas de uma grande família que existe sob uma linguagem comum — fruto do estilo de um artista maior.

A obra de Thiago Martins de Melo também tem aspectos inconfundíveis. Fundamentadas na liberdade da imaginação, na vivacidade narrativa e na explosão visual, suas criações conjugam figuração e abstração, comentários políticos e livre fantasia, leituras históricas e confissões biográficas. Velocidade vertiginosa, argúcia crítica, amplitude mitológica e verborragia narrativa se somam na materialidade densa da pintura. Suas obras são espessas na superfície e radicalmente profundas no conteúdo, propondo uma contação de história caótica, circular e anacrônica. O neobarroco do artista reafirma a violência como ponto de incisão para abordar os horrores humanos e as urgências sociopolíticas, bem como para iluminar experiências espirituais e a contínua capacidade de reinvenção da vida.

Ambos os artistas têm objetos e símbolos universais da cultura brasileira como base para criações singulares de forte expressividade. No cruzamento afiado entre terror e alegria, manejam a monstruosidade da matéria tendo em vista a transcendência existencial. Nesta conjunção inédita de suas produções, as elevadas intensidades de cada um somam-se num arranjo dramático, compondo um ambiente de alta carga atmosférica, como uma espécie de espaço ritualístico ou campo de força para a circulação de múltiplos personagens e narrativas. Na risca entre o mundano e o místico, o gore e gótico, as batalhas e as brincadeiras, os monstros maranhenses e os seus mistérios, há a inescapável brutalidade da existência terrena e, sobretudo, a pluralidade das formas, a folia indômita e o júbilo de viver.