Máscara, Maré, Memória
Beatrice Arraes, Castiel Vitorino Brasileiro, Cecília Lima, Dalton Paula, David Almeida, Dinho Araújo, Éder Oliveira, Edu de Barros, Emmanuel Nassar, Fábio Menino, Fátima Campos, Fefa Lins, Felipe Ferreira, Gê Viana, Guilherme Callegari, Ivan Grilo, Letícia Lopes, Luiz Braga, Luiz Fernando Dantas, MAHKU (Movimento dos Artistas Huni Kuin), Márcia Falcão, Márcio Vasconcelos, Marcone Moreira, Mateus Moreira, PV Dias, Silvana Mendes, Sonia Gomes, Tadáskía, Tassila Custodes, Thiago Hattnher, Thiago Martins de Melo, Vicente Martins Jr., Zimar
Curadoria: Mateus Nunes
Máscara, maré, memória apresenta pontes poéticas e imagéticas entre produções de artistas nordestinos e nortistas atuantes com obras de brasileiros de outras geografias, propondo leituras horizontais, sem as segregações hierárquicas impostas pelo mercado e pelas instituições de arte que privilegiam artistas sudestinos pouco expostos no Maranhão. A partir dessas múltiplas conexões, a mostra argumenta que a cena local partilha núcleos questionadores com as esferas artísticas nacional e internacional, não apenas provando falsa a noção de atraso e subdesenvolvimento usualmente atrelada à região, mas exemplificando seu pioneirismo e sua sofisticação, à frente em questões centrais no panorama artístico.
Máscara expõe trabalhos que não se utilizam do artifício do disfarce como negação da individualidade, mas como ferramenta de possibilidades outras de existência, de busca pelo corpo em plenitude em outras realidades. Manifestações culturais são pintadas, costuradas, bordadas e adornadas por mãos que invocam entidades, adicionando ou removendo camadas aparentes à carne viva das histórias pessoais, dos desejos de ser. A máscara, em sua ambiguidade, possibilita tanto um escape da dureza da repressão a corpos socialmente oprimidos quanto a celebração e a recuperação orgulhosa de quem se verdadeiramente é — através e apesar da corporeidade. Comporta-se como objeto transicional e enfatizador das duas instâncias que conecta. Interpretada não como instrumento de ilusão, a máscara é levantada como um estandarte bradado em honra.
Maré ilustra o rompante de força natural que oscila pela atração gravitacional entre a lua e a terra sobre a água do mar. Na quebra das ondas sobre a orla, ela se dissipa em som, cheiro e atmosfera.
Além de fenômeno geofísico, a maré é potência imaterial concentrada e viva; é entidade multissensorial que provoca a calma do pertencimento, das relações de conforto entre o corpo e o lugar. Retoma um pensamento expandido e hiperconectado, em que as situações macrocósmicas interferem nas subjetividades espirituais e nos eventos físicos menores. Rege o que se serve à mesa, do defeso à rede cheia; o que vem ao mundo e dá à luz; o banho à preamar. Sabe-se que se é de um lugar pela maré — não só água física, mas fluxo memorial mesmo de onde não há água, de lembranças que oscilam e constituem a noção de lar. Na maré, se espelha a volta de ancestralidades perdidas nas violências atlânticas, capilarizadas pelos rios que entremeiam a nossa terra.
Memória reflete sobre a fragmentação de lembranças individuais e autobiográficas, mas que podem operar em um senso memorial coletivo através de imagens atravessantes e sobreviventes. Como podemos falar coletivamente de memória, quando essa é tão íntima e pessoal? De que forma imagens podem transbordar as individualidades e abranger uma comoção coletiva, ricocheteando e transpassando novamente cada um dos observadores em pontos singulares? Questionador, o núcleo se propõe a analisar imagens e narrativas que fluem e esvanecem no tempo sem registro, amplificando a nostalgia do dispositivo memorial, ao mesmo tempo que propõe o resgate de lembranças apagadas ou perdidas, reelaboradas em novas imagens.








