Corpo Coletivo
/Gabriel Archanjo
TEXTO: THIERRY FREITAS
Algumas imagens se abrem em sentidos não apenas por sua complexidade compositiva, mas pela capacidade de evocar discursos que ultrapassam a esfera pessoal em busca de uma identificação coletiva. Consciente de que a memória é também uma construção social, Gabriel Archanjo tem desenvolvido trabalhos nos quais entrelaça recordações e reminiscências de sua própria vida, alinhando-as de maneira sutil ao complexo contexto social que molda o Brasil. Desde a década de 1990, Archanjo tem escolhido o povo brasileiro, sua cultura, seus desafios e sua resiliência cotidiana como tema central de sua produção.
Natural do Piauí, o artista possui uma trajetória de experimentações em diferentes campos, como poesia, música e artes visuais, e hoje sua obra recente aponta para uma predileção pela pintura.
Em um processo de fusão entre o pessoal e o coletivo, Archanjo tem adotado diversas estratégias de trabalho, como utilizar seu próprio arquivo fotográfico. Sua série mais recente, em pequenos formatos, revisita as figuras femininas que marcaram sua trajetória pessoal. Motivado pelo desejo de resgatar os retratos das mulheres que protagonizam seu núcleo familiar, o artista mergulhou em seus registros fotográficos e passou a desenvolver novas interpretações dessas imagens.
Em lenços brancos — objetos carregados de pessoalidade — o artista reproduz o rosto dessas mulheres, sempre enfatizando a expressividade marcante de seus traços. Em uma espécie de inventário de memórias, a conexão com o passado é intensificada pela composição fluida e, por vezes, difusa, na qual as personagens parecem flutuar como espectros.
A partir de 2023, quando recebeu o convite do diretor Douglas Machado para ilustrar o filme A Carta de Esperança, os trabalhos da série Icono adquiriram uma nova camada de complexidade: Esperança Garcia, uma das milhares de mulheres escravizadas no Piauí do século XVIII, tornou-se conhecida por sua resistência diante do tratamento desumano a que foi submetida. Com o raro privilégio da escrita, ela endereçou uma carta ao governador do Piauí denunciando os maus-tratos que ela e outras mulheres sofriam de seus “senhores”. Nesse relato, Garcia se reivindica como sujeito. Sua carta não apenas a humaniza, mas também a retira da condição de mera estatística, conferindo-lhe uma identidade própria. Não existe nenhum registro imagético de Esperança; sua carta é o seu retrato.
A partir desse contexto, Gabriel passou a expandir seus trabalhos, retratando não apenas mulheres de sua família, mas também aquelas de seu entorno, e conectando-as poeticamente com sua ancestral, hoje considerada a primeira advogada do país.
Embora Icono se concentre especificamente no gênero do retrato, a produção de Archanjo também inclui composições de caráter surrealista e misterioso. Nelas, algumas de suas figuras apresentam-se em relação entre si, enquanto outras são insólitas e melancólicas, como se vagassem, carregadas de perguntas, em meio à multidão. Archanjo não se limita a pintar pessoas; ele as torna protagonistas de uma história maior, onde a memória coletiva ganha forma e visibilidade.
Apesar de, à primeira vista, essas obras parecerem se restringir ao universo do fantástico, uma observação mais atenta revela que estão, na verdade, profundamente conectadas ao real.
Nas imagens, os personagens se revelam como parte integrante de seu ambiente. Isso se manifesta, por exemplo, na repetição da composição pontilhística, que se apresenta amalgamada entre o segundo plano e corpos das figuras, ou, em outros casos, na criação de grandes áreas circulares e fluidas, de onde emergem silhuetas compostas por um único material.
São interpretações de imagens cotidianas, muitas vezes banais, que têm como plano de fundo as imposições históricas a que fomos submetidos. Assim surgem cenas nas quais pequenos trechos bíblicos flutuam, como presenças silenciosas, ao redor de figuras negras e indígenas, lembrando-nos da influência do cristianismo na formação da cultura brasileira e do esfacelamento de outras tradições causado pela sua hegemonia. Nos pequenos detalhes, como a maneira com a qual uma figura indígena segura e interage com um macaco, somos capazes de notar o olhar atento do artista para o outro e para suas tradições.
Em gestos delicados, Arcanjo realiza um trabalho de forte cunho político que nos convida a revisitar os símbolos da cultura brasileira, evidenciando as marcas de opressão no nosso tecido social, mas, também, a força de nossa resistência.





